A história é êmula do tempo, repositório dos fatos, testemunha do passado, exemplo do presente, advertência do futuro.

( Miguel de Cervantes )


sexta-feira, 20 de maio de 2011

A GUERRA NOSSA DE CADA DIA: IMAGENS DO “TERROR” E A LOGICA HIGIENISTA

O policia carioca invade os morros, quando não expulsa, também mata traficantes, invade casas em busca de extirpar o mal, só as mães, esposas e filhos choram, um alivio geral toma conta dos moradores do rio de janeiro, e por extensão da mídia televisiva todos ficam aliviado, em todos os cantos do Brasil, vem a possibilidade de paz em suas comunidades que convivem com o tráfico de drogas e seus maleficios. A mídia alarde aos quatro cantos: “a boa sociedade está vencendo a má sociedade”, e mais uma vez nesse universo de clivagens o bem vai vencendo o mal, mas me proponho a interceder e pensar um pouco em como se constroem essas noções entre nós, pobres mortais, cristãos, sempre altruístas com o próximo, e por que ficamos tão aliviados assim com essas mortes dos traficantes.
Tais reportagens fazem parte de um processo amplo e direcionado, de implantação e difusão do medo, componente mais do que necessário para alimentar as decisões arbitrarias e desfocar a discussão do que seria o nó górdio da segurança publica e de outros problemas, que no rio de janeiro e em muitos outros estados, e suas cidades cada vez mais remotas que sem sequer pensam essa situação , pois segurança se restringe a prender e soltar o bandidos pobres e ignorar os ricos e perigosos bandidos, ao invés de buscar apontamentos para elucidar as cadeias geradoras do tráfico de drogas, por suas rotas e pelos grandes traficantes, que não estão nas favelas, tem se intensificado em colocar os pequenos traficantes, moradores dos morros cariocas, das diversas favelas espalhadas por todos os cantos, ou mesmo os usuários das crakolandias Brasil adentro, cotidianamente como sendo se não os únicos, os principais responsáveis pela violência urbana e conseqüentemente por seus efeitos.
A potencialização deste antagonismo é incentivada por uma elite política e econômica que, além de sentir-se atemorizada, necessita obscurecer suas responsabilidades e vinculações históricas com a crise social do País. Aproveitando-se de fatos concretos como o aumento do número de atos infracionais cometidos por adolescentes, ações de traficantes, assaltos e ondas de arrastões, mal explicados e bem explorados com o intuito de semear o medo, estes setores adaptam seus interesses particulares de forma a apresentá-los como legítimos, universais e preconizadores do bem-estar e da segurança pública, por tanto do bem viver da maioria.


Com toda essa divulgação massiva de violências temos o cultivo exacerbado da cultura do medo, servindo de sustentação a proliferação de uma percepção na qual o mal deve ser extirpado a qualquer custo, o estado se propondo a resolver esse medo e trazer paz social ganha aval para suas ações, muitas delas inconseqüentes e violentas, principalmente como tem se mostrado ultimamente no Rio de Janeiro, exageradamente mostradas e em outros lugares silenciosamente escondidos.
Na interlocução estabelecida com a sociedade, termos como violência, terror e medo são muito utilizados na retórica da mídia sensacionalista brasileira. Todos os dias há algum acontecimento posto nesse enquadramento semântico que identifica a relação da sociedade com o crime, como uma guerra a ser enfrentada o mais rápido possível, ou seja, o inimigo precisa ser vencido. O crime e esse inimigo, mas não qualquer crime, diga-se de passagem, mas sim o crime dos pobres, diga-se bem. É em relação à violência por eles praticada, que a sociedade encontra-se refém, aterrorizada, afrontada.
O foco dessa guerra continua sendo os pobres, que além de intencionalmente condenados por sua condição de pobreza, são também comumente acusados e quase sempre apresentados nas instancias e cenários de construções e massificação de realidades, se não como os principais, como os únicos responsáveis pelas violências que assolam as cidades e seus cidadões, sujeitos sobre quem também para justificar as ações das instituições responsáveis pela “lei e pela ordem”, justificam ações quase sempre injustificáveis, como violências físicas, simbólicas e constrangimentos de varias espécies,. Aceitas pela sociedade pois são, colocadas sempre pela lente do medo e do necessário para resolver o que causa o medo, sempre apregoado e transformado em um mercado simbólico, onde, depois de disseminado fica mais fácil justificar ações e violências.
A alimentação desse medo cotidiano, cria um mercado simbólico, onde os consumidores desse medo generalizado, mal explicado, porém muito difundido, também são consumidores de um modelo de “segurança”, onde a violência, a truculência e qualquer extermínio podem ser feitos em nome do combate ao terror, mas não de um terror qualquer, mas de um terror gerado pela pobreza e pelos pobres.
Em um pais como o Brasil, com um histórico de políticas higienista, que sempre pairou por seu imaginário e suas praticas, a noção da “perigosa” ligação entre pobreza e periculosidade, que embalou e ainda embalas suas políticas de ação e de segurança, é muito complicado tudo isso está acontecendo e permanecermos estáticos. Se esse modelo vivido no Rio de Janeiro for exportado para os demais estados da federação, como de fato e lentamente tem sido, teremos um genocídio estatal, generalizado e direcionado, que antes de atacar o problema que seria o trafico de drogas, ataca os afetados pelo problema, construindo sobre eles a noção do próprio problema. Como o Rio de Janeiro hoje vive seu próprio Iraque, daqui a alguns meses outras partes do Brasil, se essa lógica se exportar , viveram nossos próprios Rios de Janeiros, pois lembrando da lição nos dada por Hanna Arendet, em seu livro as origens do totalitarismo, ou mesmo Foucault (2003) em seu livro em defesa da sociedade, uma lógica ou pratica totalitária, ou fascista antes de se transformar em pratica é transformada em idéia, é massificada para só depois se transformar em pratica social.


Marcondes Brito – Sociólogo, Mestrando em Políticas Publicas pela Universidade Federal do Piauí, na linha de pesquisa de cultura identidade e processos sociais. Pesquisa: juventude, identidade e trafico de drogas. E alguém puto com essas historias toda.

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